O garoto da mochila xadrez

segunda-feira, março 14, 2016

Foi em sonho que revi o garoto da mochila xadrez. Gesticulando freneticamente, no metrô, ele falava sobre filmes com animação. Com uma genuína animação — pois era assim que sempre ficava ao falar sobre algo de que tanto gostava. Lembro-me do dia em que conversamos pela primeira vez. Esperei-o próximo ao lugar em que sempre ocupava; o metrô estava razoavelmente vazio. Lembro-me de que ele vestia um casaco escuro, sapatos desgastados e carregava sua mochila xadrez. O rosto parecia cansado, e os cabelos estavam um tanto desarrumados, mas cumprimentava a todos com um sorriso leve no rosto. Pediu licença para se sentar ao meu lado; cheirava a menta e cidade.
Um tanto tímida, disse-lhe que o havia escutado falando sobre filmes. Ele riu, e me contou que era um cinéfilo ávido. A partir disso, conversamos pelo resto do percurso. O garoto falava sobre filmes com a animação de um eterno amante; com a extrema paixão de um primeiro encontro, a serenidade de um relacionamento estável; e a decepção de um coração partido. Conversamos sobre tudo quanto é filme que o tempo nos permitiu conversar — em especial os lançados nos anos 80, os de que ele mais gostava.
Foi isso. Ninguém pode imaginar por que sonha as coisas, mas essa conversa com o garoto da mochila xadrez, três anos atrás, lembra-me uma tarde de maratona de filmes em casa com minhas amigas. Assistimos a um filme de ficção científica e a um outro de terror. Mas, no fim do dia, vimos os clássicos de John Hughes, grande diretor dos anos 80 — tais quais se encaixavam em todas as perguntas que eu me fazia naquela época.
Foi no tempo da transição da infância para a adolescência: perguntas sobre o que se vai ser quando crescer, a preparação para os vestibulares, o sonho com a noite de formatura, o medo de não ser aceito pelo que se é, receio do que está para vir no futuro, o não querer se separar dos amigos… Um período de grandes descobertas que depois se ligou a esse garoto da mochila xadrez.
Foi em sonho que revi o garoto; com suas manias ao se expressar e o leve sotaque de alguém de outro país. Eu nunca soube o seu nome, ou de onde vinha, ou para onde ia, mas, de alguma forma, eu me lembrava do modo com que mexia as pernas a todo instante, como se não pudesse ficar parado, e suas caretas desconsertadas quando se distraía no que dizia…
Gostaria de poder mais uma vez entrar naquele metrô, no fim da tarde, para falarmos sobre os filmes em cartaz, os que queríamos ou não ver. Sinto saudade de seu sorriso admirado, quando lhe dizia que havia assistido a algo indicado por ele, e de sua animação quando eu gostava do filme. Saudade da maneira automática com que arrumava o cabelo, e de como sempre saía correndo — mesmo estando a pouco mais de dois metros de distância da porta — quando seu ponto chegava.
Foi em sonho que revi o garoto. Havia o metrô, a conversa sobre filmes e outras lembranças: a maneira como as pessoas interagiam em nossa conversa, sorrisos envergonhados sempre que nos exaltávamos, uma despedida que nunca veio… Mas, de repente, é apenas o garoto da mochila xadrez, com casaco escuro e sapatos desgastados, que me falou sobre filmes do John Hughes, com sua sincera animação; esse do qual eu nunca soube o nome e, entretanto, ainda podia sentir o cheiro de menta misturado com o cheiro de cidade…

Paráfrase do texto “Uma lembrança”, de Rubem Braga.

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.