O Fim

segunda-feira, março 28, 2016


Noite desafinada. Chove. O céu goteja no telhado, intimidando as evidências sádicas que dormem no canto dos olhos. O temporal lá fora lava as calhas empoeiradas. E aqui, são as lágrimas, que florescem das molduras da alma rasgada, a tristeza pelos rastros do meu brio adoecido. Quando foi que a aquarela perdeu a cor? Quando foi que agulhas do fiar se quebraram? Trovões ecoam pelo quarto. Escorre-se a estirpe no tremular das mãos enfraquecidas. Minha hemorragia é interna, sem se ver por onde sangra,nem por onde anda. Tardes vazias antecipam tudo o que tenho evitado. Pesares desmoronam tudo o que há tempos caem aos pedaços. 
Flores de plástico agonizam-me pelo reflexo do vidro embaçado. Fitam-me e devoram-me na plenitude de sua petulância. Nas lacunas de minhas lembranças engavetam-se urnas funerárias dos restos meus, das cinzas que o vento esqueceu, daquilo que sempre fui, do que era. Ecos do que já se perdeu, dos retalhos de uma guerra interna. 
A ventania surra pingos contra a janela fechada e pode-se ver através de suas frestas o amarelar das luzes lá fora. Sepultei flores nos túmulos da minha áurea, como um desespero ensaiado por meu luto rotineiro. Eu me enterrei junto à elas, sequei, e morri ao perder a essência do penar. Não há mais recordações após uma morte tranquila. Não há mais dor. Não há mais haver, nem temer, nem o que me contrarie disso tudo. Algema-se a realidade à utopia suicida… 
Morri por dentro, no oco da alma, nos arredores da calma, da cama e do resto insignificante que ainda resta. 

Despedaçam-se as pétalas murchas sobre o valete do chão gelado, e tais deixam escapar gritos pelas rachaduras da parede rente ao piso. De tempos em ventos, outonos secam as folhas no quintal, trazendo nostalgia e prantos no cair da tarde, em quietude, com saudades afiadas fazendo morada nas memórias. 
Lá fora os carrilhões chocam-se frenéticos, anunciando o inverno rigoroso que logo vem, que chega, aconchega, que me deita na cama fria pra chorar melancolias agridoces entre um riso e outro. 
Vaguei muitos séculos pela vida à procura de um anjo que me ensinasse a cantar com os olhos distraídos por saudades de um beijo lento, ao relento. Alguém que me presenteasse cartas de amor aos rascunhos dobrados. Alguém que me domasse e me contivesse sobre os trilhos da fidelidade alheia. Mas de toda essa angústia costurando os meus dias cinza, suspira a saudade que varre as lembranças. A falta de sorrisos para enfeitar os lábios pálidos meus, secos e já esquecidos de como se encurvarem quando a felicidade vozeia ensurdecedora pela caixa do correio. Não há mais tanto a dizer, nem a esperar do resto dos dias que virão. Dos silêncios que rejeitam minha existência escapam retalhos de um passado, mofado, que nem nas profundidades do tempo encontrou lacunas para se enterrar. Nos mosaicos do meu penar, orna-se meus pulsos cortados, que de tão ensanguentados, paralisam-se nulos em um varal qualquer de pensamentos exagerados de obsessão. Este meu coração nublado enferrujou-se no sereno da ilusão.Meu sorriso encontra-se jazido nas cinzas de meus sonhos. Até os anjos que antes zelavam por mim, agora longe, sentem repulsa… É o fim, de mais uma carta, de mais uma vida, demais uma madrugada… 
É o abraço final, o enlace do roseiral púrpuro, o ritual, a orla da melodia perfeita.

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