Especial Halloween - contos: Massacre da Vitrola

sábado, outubro 31, 2015
Era Dia das Crianças em 1986, e Marcos havia acordado com tanta energia e felicidade que parecia o início das férias de verão. Apesar da idade (ele tinha seus onze anos), era um garoto muito inteligente – do tipo que sabia até cantar em inglês – e a primeira coisa que fez foi colocar pra tocar sua fita preferida do Trem da Alegria e brincar um pouco com seu boneco do Fofão. Só parou mesmo quando ouviu sua mãe reclamar, assustada, pelo uso do brinquedo. “Tira esse negócio de perto de mim,” ela disse. “Parece o capeta!”
Ele começou a rir e, com medo de apanhar, decidiu guardar o boneco e c iar uma nave espacial com os bloquinhos de montar enquanto assistia o programa da Ana Paula Falastrão na TV.
Ana Paula era loira, gospel e sempre aparecia na telinha usando roupas que acentuavam os detalhes de seu corpo. Sua missão era “espalhar a palavra de Deus” entre reprises de Tom & Jerry, He-Man e Jambo e Ruivão.
“Olá baixinhos! Gostaram dessa música? O nome dela é ‘A Bonequinha do Papai do Céu’ e faz parte do meu novo Disco que já está nas lojas. É uma honra poder estar lançando mais um trabalho musical, apesar de eu nem ser cantora, para a honra e glória do Carinha lá de Cima. Amém? Vamos orar juntinhos para que o Papai do Céu possa abençoar nosso café da manhã.”
“Mamãe! Mamãe!”, gritou Marcos. “A senhora comprou o meu disco da Ana Paula?”
“Como não iria dar o melhor presente do Dia da Criança para o meu melhor filhinho?”, ela respondeu e ganhou o maior abraço do mundo.
***
“Ainda bem que acabou a gravação. Odeio essas crianças xexelentas”, dizia uma visivelmente mau humorada Ana, enquanto trocava de roupa em seu camarim.
“Saiu tudo como planejado?”, perguntou à seu assistente, Maurice, que estava desligando o telefone.
“Sim. Nós já vendemos um milhão e meio de cópias! É um dos mais pedidos para o dia da criança.”
“Perfeito!”
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É noite de 31 de Outubro, e por toda a casa já não havia barulho algum, exceto pelos pequenos passos de Marcos em direção à cozinha. O garoto aparentava não ter mais a energia de alguns dias atrás, e seu olhar morto fazia-o parecer dominado por alguma força além deste mundo. Procurou alguma coisa afiada o suficiente, mas sua mãe guardava tudo num armário que era alto demais para ele.
Resolveu então pegar o martelo na caixa de ferramentas de seu pai. “Manon”, sussurrou baixinho, “aceite esse sacrifício como forma de agradecimento e devoção”, e então seguiu para o quarto de seus pais.
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Jornal da Manhã, 01 de Novembro de 1986
“Notícia de última hora: Na última noite de Outubro, uma série de assassinatos tomou conta do nosso país. Cerca de dois milhões de vítimas, dentre elas famílias inteiras, foram contabilizadas até o fechamento desta edição. Maiores detalhes no jornal das onze e meia.”
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Em algum apartamento escuro no meio do Brasil, Ana Paula Falastrão se reúne com familiares e amigos em um círculo. Cada um acende uma vela e recita uma frase em algum dialeto incompreensível. Uma ventania forte aparece de lugar nenhum, e apesar de sua magnitude, as chamas das velas continuam intactas, dando um ar sombrio ao local.
“Espíritos do vento, do ar, do fogo e do céu. Nos ouçam! Levem nosso sacrifício até a divindade suprema! Levem nossa oferenda até o grande Manon!”
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Já fazia trinta dias desde o acontecido, e apesar de intensas investigações, a polícia não havia encontrado nada que mostrasse o verdadeiro responsável pelo ocorrido. O chefe de um departamento local, João Cortês, suava frio e folgava sua gravata ao falar em uma pequena coletiva de imprensa. “Tudo o que conseguimos descobrir até aqui é que as crianças mataram os pais e depois se mataram. Mas até aqui não há nenhum motivo. Pareciam famílias normais, pessoas de bem... Cristãs. Encontrei mais discos da Ana Paula Falastrão nas cenas do crime que provas conclusivas sobre o que está por trás disso.”
Dirigindo um Ford e ouvindo tudo pelo Rádio, Luís Ricardo freia bruscamente após ouvir o nome de Ana Paula Falastrão. “Hum...”
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“Hoje vamos mostrar uma coisa i-nédita na televisão brasileira”, dizia Jaiminho enquanto apresentava mais um de seus programas sensacionalistas ao vivo. “Estamos aqui com o especialista fonográfico Luís Ricardo, e ele promete nos mostrar a verdadeira mente por trás da chacina que aterrorizou o Brasil.”
Após enrolar a entrada de Luís Ricardo em seu programa e garantir a liderança de audiência, Jaiminho o convidou para o palco.
“Senhoras e senhores, sou especialista fonográfico graduado em Harvard, nos Estados Unidos. Fiz pós graduação e pesquisa sobre mensagens subliminares e ainda assim, o que descobri me deixou atônito”. Nesse momento, a audiência exprime simultaneamente um “oh!” de surpresa.
“Se colocarmos o novo disco de Ana Paula Falastrão neste toca-discos especializado e diminuirmos um pouco a frequência, ouviremos mensagens subliminares induzindo nossas crianças a cometerem assassinatos como oferenda ao maior demônio que o mundo já viu: Manon, o deus das trevas!”
E o programa seguiu com uma pequena demonstração, que fez todas as moças da primeira fila desmaiarem.
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Jornal da Manhã, 10 de Dezembro de 1986
“Exclusivo: A apresentadora infantil Ana Paula Falastrão é sentenciada a prisão perpétua após ser declarada culpada pela Chacina da Vitrola, o crime que chocou o Brasil. O especialista fonográfico Luís Ricardo alerta que, para cortar o efeito das mensagens subliminares de Falastrão, as crianças devem ser submetidas à pelo menos trinta horas contínuas de música dos Beatles e dos Rolling Stones. O diretor-chefe da TV Planeta, ainda em choque com a descoberta, ofereceu as próximas trinta horas do canal para exibição contínua desses clássicos de rock, numa tentativa de se redimir com a sociedade. Em nota, ele disse estar tão surpreso quanto à população e espera que as pessoas não associem o crime à seu canal de TV.”
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Março de 2015, Programa do Glu-Glu
“Estamos na Penitenciária Azkaban, local onde os mais temidos criminosos são mandados para cumprir suas penas. Nossa missão hoje, é tentar contato com Ana Paula Falastrão que, trinta anos atrás, encabeçou a ‘Chacina da Vitrola’, o crime que chocou o Brasil”, dizia Glu-Glu, em tom de suspense, apresentando a entrevista de estreia de seu programa na Rede Recorde de Televisão.
Após uma extensiva turnê pelo local, ele senta em uma salinha cara a cara com uma senhora de cabelos um pouco grisalhos, algemada e fumando um cigarro.

“Eu nem falava o nome daquela praga e as pessoas me chamavam de... ‘Gospel’,” ela diz, rindo cinicamente. “Vocês acham que essa história de ‘cara lá de cima’ era pra ser... Jovial? Hahahahaha. Te digo uma coisa, o Brasil é cheio de gente que nunca nem leu esse livro aí e se acham gente da igreja, gente de bem. Manon me ofereceu riquezas que estão comigo até hoje, vi uma oportunidade e abracei. Serei solta em breve por bom comportamento e AI DE QUEM OUSAR CHEGAR PERTO DE MIM COM MÁS INTENÇÕES. MANON VOLTARÁ PARA LEVAR TODOS VOCÊS!” – nessa última frase, sua voz mudou para um tom mais grave e seus olhos ficaram visivelmente vermelhos. Glu-Glu ficou nervoso. Fim das gravações.

Conto escrito por Davi Hughes.

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